Por Tati de Vasconcellos
A nova série da Netflix “Adolescência” tem gerado debates intensos ao retratar a história de Jamie Miller, um adolescente de 13 anos acusado de assassinar sua colega de classe, Katie Leonard. Filmada em plano-sequência, sem cortes, a série mergulha em temas sensíveis como violência juvenil, bullying, masculinidade tóxica e a influência das redes sociais na adolescência.
Embora a trama não seja baseada em um caso real específico, ela se inspira em diversos incidentes envolvendo jovens e violência, levantando uma questão preocupante: até que ponto a exposição a conteúdos violentos pode impactar a saúde mental dos adolescentes?
A adolescência como fase de vulnerabilidade emocional
A adolescência é uma fase marcada por intensas mudanças emocionais, hormonais e cognitivas. O cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente o córtex pré-frontal – a área responsável pelo controle de impulsos, tomada de decisões e empatia.
🔹 Isso significa que os adolescentes estão mais vulneráveis a absorver e internalizar o que assistem, muitas vezes sem a maturidade necessária para diferenciar ficção de realidade.
🔹 Séries como “Adolescência” podem intensificar sentimentos de ansiedade, medo e confusão emocional, principalmente para jovens que já enfrentam desafios emocionais ou sociais.
📌 Mas o impacto vai além das séries:
Além de conteúdos fictícios como “Adolescência”, exposição constante a cenas de violência em filmes, videogames e até mesmo nas redes sociais pode causar efeitos similares.
✅ Desensibilização emocional: Quando jovens assistem repetidamente a cenas violentas, podem se tornar menos sensíveis à dor dos outros e considerar esses comportamentos como normais.
✅ Identificação com comportamentos agressivos: Jovens que se sentem isolados ou incompreendidos podem se identificar com personagens violentos, reforçando sentimentos de raiva ou solidão.
✅ Normalização da violência: A exposição contínua pode levar os adolescentes a enxergarem a violência como uma resposta aceitável para resolver conflitos.
👉 Esse ciclo, se não mediado, pode criar um ambiente onde emoções difíceis são reprimidas e expressas de forma disfuncional.
O efeito da exposição repetida: quando a ficção molda percepções
Pesquisas mostram que a exposição repetida a cenas de violência pode levar os jovens a se tornarem mais insensíveis à dor alheia e a desenvolverem uma percepção distorcida da realidade.
🔹Excesso de estímulos violentos pode reforçar padrões de agressividade inconsciente, especialmente em jovens que não têm um ambiente seguro para discutir essas emoções.
🔹 O impacto da violência digital é ainda mais preocupante: Nas redes sociais, vídeos virais de brigas, humilhações públicas e bullying são consumidos sem filtro, muitas vezes como forma de entretenimento.
👉 Esses conteúdos moldam a visão de mundo dos adolescentes, influenciando como eles interpretam emoções, relacionamentos e conflitos.
Como ajudar os adolescentes a processar essas narrativas?
Se por um lado séries como “Adolescência” podem gerar reflexões importantes sobre temas delicados, por outro, elas exigem acompanhamento e diálogo para que os jovens não absorvam essas histórias de forma prejudicial.
Aqui estão algumas formas práticas de ajudar:
1️⃣ Converse sobre o que foi assistido:
Pergunte como o adolescente se sentiu em relação às cenas mais impactantes. Estimule a reflexão: “Você acha que algo assim poderia acontecer na vida real? Como isso te faz sentir?”
2️⃣ Desenvolva o pensamento crítico:
Ensine os jovens a questionar o que assistem. Explique que as séries dramatizam situações para gerar impacto, mas que a realidade é mais complexa e exige empatia e responsabilidade.
3️⃣ Crie espaços para expressar emoções:
Adolescentes nem sempre conseguem nomear o que sentem. Incentive a escrita, a arte ou simplesmente um espaço seguro para conversas abertas sobre emoções e inseguranças.
4️⃣ Monitore o consumo de conteúdo:
Embora seja importante dar autonomia aos adolescentes, é fundamental acompanhar o tipo de conteúdo que consomem – tanto em séries quanto nas redes sociais – e discutir os temas abordados de forma crítica e saudável.
Entre o entretenimento e a construção de valores
Séries como “Adolescência” trazem à tona questões urgentes e relevantes sobre a juventude, mas também exigem um olhar atento dos adultos para mediar o impacto emocional que essas narrativas podem causar.
O entretenimento pode ser uma porta para conversas significativas – ou uma armadilha para percepções distorcidas.
A chave está em usar essas histórias como gatilhos para reflexão e diálogo, ajudando os jovens a construir uma visão mais empática, crítica e equilibrada da realidade.
✍️ Sobre a autora:
Tati de Vasconcellos é terapeuta holística com mais de 10 anos de experiência, especializada em saúde emocional e bem-estar. Sua missão é ajudar pessoas altamente sensíveis (PAS) a compreenderem sua mente e emoções para viverem com mais equilíbrio e propósito.