Se a tecnologia já mudou a forma como vivemos, por que ainda construímos como fazíamos há 50 anos?
Lembro-me bem do primeiro canteiro de obras em que trabalhei, ainda no ano de 2012 em Natal – RN, Brasil. O concreto estava sendo despejado manualmente, a equipe correndo para manter o ritmo, e o desperdício de material em um canto já formava uma pilha considerável. Tudo parecia normal — afinal, esse sempre foi o jeito de fazer as coisas. Mas naquele momento, eu me perguntei: por que continuamos construindo assim, enquanto o mundo inteiro avança com tecnologia e automação? A busca por essa resposta começou na minha formação em engenharia.
Essa percepção só se fortaleceu durante minha formação em engenharia. Estudando em uma universidade reconhecida como referência, percebi que os métodos ensinados ainda estavam desalinhados com a realidade do mercado. Apesar de uma base técnica sólida, faltava conexão com inovação e tecnologia. Em uma profissão que deveria formar engenheiros preparados para moldar o futuro, ainda eram ensinadas ferramentas do passado. Essa desconexão não afetava apenas os engenheiros; ela se refletia diretamente na mão de obra operacional, perpetuando práticas desatualizadas que comprometiam a produtividade e a qualidade dos projetos.
Minha graduação em Engenharia Civil foi na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), reconhecida pela excelência técnica em engenharia. Durante esse período, fiz um intercâmbio acadêmico na University of Colorado, em Denver, entre agosto de 2014 e dezembro de 2015. Essa experiência abriu minha visão para a diferença nos métodos construtivos entre o Brasil e os Estados Unidos. Percebi como processos mais industrializados resultavam em maior produtividade e eficiência. Também participei de um treinamento em gerenciamento de construção na Califórnia, onde tive contato com grandes obras em Downtown Los Angeles. Lembro-me de um experiente Project Manager comentando como as parcerias entre empresas e universidades ajudavam a integrar os profissionais desde cedo com as necessidades reais da indústria. Fundamental.
Particularmente, sempre fui inquieto em relação a desafios e tenho uma mentalidade voltada para inovação e busca de soluções. Minha criatividade e visão estratégica me levaram a fundar empresas focadas em infraestrutura urbana e saneamento, oferecendo consultoria especializada para sistemas urbanos complexos. Também fundei uma empresa de construção, onde pude aplicar esse pensamento inovador para otimizar processos e elevar a qualidade dos projetos entregues, chegando a liderar uma equipe de quase 100 funcionários fixos. A experiência de gerir essa estrutura reforçou para mim o impacto direto que processos bem estruturados e profissionais qualificados têm na produtividade e no resultado final das obras.
Uma das formas que expressei essa mentalidade de inovação foi no projeto que desenvolvi para a Casa Cor 2019, a maior e mais completa mostra de design, paisagismo e arquitetura das Américas. Criei um protótipo de acessibilidade para permitir que pessoas com deficiência visual experimentassem o evento de maneira sensorial. Esse projeto mostrou que a inovação não é apenas uma vantagem competitiva — é uma ferramenta de inclusão e transformação social.
Se a inovação pode gerar inclusão e transformar a experiência das pessoas, por que ainda não conseguimos aplicar essa mesma mentalidade nos processos produtivos do setor?
Desde cedo, ficou claro para mim que o baixo investimento em educação gera uma escassez de profissionais qualificados. Isso mantém o custo da mão de obra relativamente baixo, mas com um impacto direto na produtividade e na qualidade dos serviços prestados. Em contraste, países como Estados Unidos e Alemanha têm uma indústria de construção altamente desenvolvida, adotando métodos como a construção modular. Estruturas pré-fabricadas são produzidas em fábricas especializadas e montadas no canteiro de obras com precisão e eficiência, o que permite maior rapidez na execução e redução de desperdício. A construção modular já está em um nível avançado nesses mercados, trazendo ganhos de escala e qualidade que ainda não foram plenamente explorados em outros países.
Os números mostram essa diferença com clareza: em mercados desenvolvidos, como Estados Unidos e Alemanha, a produtividade na construção civil chega a ser até quatro vezes maior em comparação com países que ainda utilizam métodos tradicionais. Em 2024, um trabalhador brasileiro gerou cerca de US$ 21,44 por hora, enquanto nos Estados Unidos esse valor foi de US$ 94,80 por hora (Fonte: Terra). Esse ganho não é apenas resultado de tecnologia — é fruto de um sistema que valoriza a qualificação profissional e incentiva processos mais eficientes e inovadores.
Essa diferença de produtividade é evidente quando comparamos com outros setores que já abraçaram a inovação. Treinamento, organização e inovação. São esses três pilares que fazem a diferença em um canteiro de obras eficiente.
Sempre me chamou atenção como a tecnologia transformou setores inteiros, tornando carros mais eficientes, alimentos mais acessíveis e dispositivos eletrônicos mais rápidos. Mas, na construção civil, os métodos permanecem essencialmente os mesmos de décadas atrás — tijolo por tijolo, com desperdício de material e tempo. Enquanto fábricas de automóveis são altamente automatizadas, ainda vemos equipes em canteiros de obra enfrentando desafios básicos por falta de organização e estrutura. E isso, para mim, é um dos maiores paradoxos da indústria.
Não é que o setor da construção civil não receba investimentos. A construção é um dos setores que mais empregam e recebem incentivos governamentais. O problema é que esse investimento, muitas vezes, não está aliado a processos eficientes e modernos. O resultado? Obras demoradas, com altos custos e sujeitas a problemas jurídicos, trabalhistas e ambientais.
Se sabemos o que precisa ser feito — qualificação, modernização e melhores processos — por que ainda resistimos a essa mudança?
O maior desafio, no entanto, está na capacitação técnica. Países como Alemanha e Suécia já entenderam que industrializar a construção civil não significa apenas automatizar processos — também envolve capacitar profissionais para comandar essa evolução. Empresas como Bosch e Siemens oferecem programas robustos de treinamento em tecnologia aplicada à construção. Isso garante que trabalhadores possam operar máquinas avançadas, interpretar dados e se adaptar a processos mais industrializados.
No contexto social, uma das questões que mais me chamou atenção ao longo da minha trajetória foi a diferença na qualidade de vida dos profissionais da construção em diferentes países. Nos mercados desenvolvidos, a valorização dos profissionais operacionais é claramente percebida. Um montador de drywall nos Estados Unidos, por exemplo, recebe um salário digno e consegue viver com estabilidade. Isso não acontece por acaso. Nesses países, a alta produtividade gerada por processos industrializados e por mão de obra qualificada permite que o trabalho operacional seja valorizado — quanto mais capacitado o profissional, maior é o retorno financeiro e social.
Esse ciclo de valorização é sustentado por um sistema bem estruturado para capacitação e industrialização. Profissionais bem remunerados e com estabilidade financeira tornam-se mais independentes e seguros. Além disso, com maior poder de compra e segurança econômica, esses profissionais movimentam a economia local, criando um ciclo de crescimento sustentável.
O futuro da construção civil não precisa ser uma repetição do passado. Podemos continuar operando de forma ineficiente, com desperdício de material e baixa produtividade, ou podemos aprender com países que já encontraram soluções para esses desafios. Podemos seguir construindo com prazos estendidos e margens apertadas, ou podemos investir em processos mais rápidos, baratos e seguros, aproveitando o potencial da industrialização e da capacitação profissional. Falo isso com conhecimento de causa: liderar equipes, otimizar processos e buscar soluções inovadoras sempre foram parte essencial do meu trabalho.
Essa transformação não é apenas sobre eficiência operacional — é sobre valorizar o trabalho operacional e reconhecer que a verdadeira evolução do setor passa pela valorização dos profissionais da construção civil. A pergunta que fica é: o que estamos esperando para mudar isso?