Por Dra. Letícia Sangaletti
Na semana passada, escrevi aqui sobre como aplicativos de inteligência artificial podem — e devem — ser usados a nosso favor na comunicação. Falei da IA como ferramenta, como aliada, como extensão da nossa criatividade.
E defendi com convicção: ela pode nos ajudar a escrever melhor, pensar com mais clareza, encontrar palavras que às vezes nos escapam.
Mas essa semana, algo me fez refletir e ampliar a discussão sobre o uso responsável das ferramentas de IA.
Ao rolar o feed das redes sociais, me deparei com uma onda de imagens — estáticas e em vídeo — geradas por inteligência artificial no estilo dos Estúdios Ghibli. Aquela estética suave, nostálgica, quase mágica, que tanta gente já se emocionou ao ver em filmes como A Viagem de Chihiro ou Meu Amigo Totoro.
As animações foram criadas por sistemas generativos treinados para emular traços, paletas de cores, movimentos e atmosferas típicas dos animes mais amados do planeta. Bonito. Impressionante. Rápido.
Assim que a trend surgiu, já nos perguntamos — como criadores — se algum cliente se encaixaria nela. E, principalmente: seria ético fazer isso? O cuidado com direitos autorais e propriedade intelectual é parte do nosso trabalho.
Porque embora as imagens tivessem todo o charme visual, algo essencial parecia ausente.
Aquela obra não nasceu de horas de esboço.
Não passou pelas mãos humanas.
Não carregava dúvida, nem ruído.
Foi então que a pergunta mudou.
Na primeira coluna, eu perguntava: “Posso usar IA para me comunicar melhor?”
Hoje, a pergunta é outra: “A IA pode criar beleza, mas será que entende arte?”
Se ela aprende com o trabalho de outros, onde termina a inspiração e começa a apropriação?
Era IA. Não era Ghibli.
Ou seria apenas um reflexo digital, uma homenagem vazia, uma reprodução sem intenção?
A IA é excelente em identificar padrões.
Ela reconhece paletas de cor, traços, composições. Reorganiza esses elementos de forma coerente — muitas vezes, surpreendente.
Mas… ela não sente.
Quando Hayao Miyazaki desenha um cenário, ele não está apenas construindo uma estética.
Ele está traduzindo uma filosofia de vida.
Cada traço vem de um mundo interno que a IA não acessa — porque não sonha, não sofre, não sente saudade, não carrega memória.
A IA pode reproduzir estilo. Mas não compreende intenção. É como repetir uma frase bonita em uma língua que você não fala. Você pode dizer com perfeição. Mas não sabe o que significa.
A criação exige autonomia
E é aqui que mora a nossa responsabilidade.
Se começarmos a entregar para a IA as tarefas que exigem escuta, escolha e autoria — corremos o risco de perder nossa própria voz.
Não de uma hora para outra.
Mas aos poucos.
De tanto automatizar a linguagem, esvaziamos o pensamento.
De tanto terceirizar o estilo, esquecemos como era escrever com alma.
Por isso, mais do que nunca, precisamos preservar a nossa autoridade criativa.
A IA pode ser ferramenta — mas jamais protagonista.
Ela pode apontar caminhos — mas quem decide a direção ainda somos nós.
Ferramenta, não atalho
(Já disse isso, não disse?)
Sim. E repito.
Usar IA pode ser produtivo, divertido, inspirador.
Mas exige parcimônia.
Porque quando tudo é fácil demais, a gente para de se esforçar.
E a criação, por essência, pede esforço.
Pede tempo.
Pede envolvimento emocional.
Pede não — exige.
Na ânsia por resultados rápidos, corremos o risco de abandonar o processo.
E é justamente no processo que mora o aprendizado.
Então o que eu penso?
Criar com IA, sim.
Mas com consciência.
Com autonomia.
Com a certeza de que aquilo que comunicamos ainda carrega a nossa identidade.
A IA pode gerar coisas lindas.
Mas quem toca de verdade… ainda somos nós.
Com nossa imperfeição, nossa demora, nossa humanidade, nossas experiências.
Então não esqueça:
- A IA pode colaborar, mas você ainda é a criadora.
- Não terceirize a sua intuição.
- Escreva com apoio, não por substituição.
- Preserve sua voz — e faça dela sua assinatura no mundo.